Medidor de Resistência Interna para Baterias de Íons de Lítio
Uma bateria de íons de lítio pode apresentar uma tensão aparentemente normal e, mesmo assim, não conseguir fornecer corrente adequadamente. Isso acontece porque, com o uso e o envelhecimento, sua resistência interna aumenta.
Neste projeto, desenvolvemos no Circuitaria LAB um medidor de resistência interna utilizando um ESP32-C3, um MOSFET, um resistor de carga e um resistor shunt. O instrumento mede a tensão da bateria antes e durante a aplicação de uma carga controlada e calcula sua resistência interna. O resultado é mostrado em um display OLED.
Por que medir a resistência interna?
Medir somente a tensão de uma bateria não é suficiente para determinar seu estado real. Uma célula carregada pode apresentar aproximadamente 4,2 V sem carga, mas sofrer uma queda acentuada de tensão quando alimenta um circuito.
Essa queda ocorre porque toda bateria real possui uma pequena resistência interna. Conforme a célula envelhece, sofre ciclos de carga e descarga ou é submetida a temperaturas elevadas, essa resistência tende a aumentar.
Uma bateria com resistência interna elevada pode:
- Apresentar grande queda de tensão durante o uso.
- Aquecer mais ao fornecer corrente.
- Desligar equipamentos antes do esperado.
- Ter dificuldade para alimentar motores e outros dispositivos de maior potência.
- Apresentar capacidade aparente menor, mesmo estando carregada.
Por isso, a resistência interna é um parâmetro importante para comparar células, identificar baterias desgastadas e selecionar unidades que serão utilizadas juntas em um conjunto.
Como funciona
Primeiramente, o ESP32-C3 mede a tensão da bateria sem carga. Em seguida, ele aciona o MOSFET por um curto período, conectando o resistor de 4,7 Ω à bateria e fazendo uma corrente controlada circular pelo circuito.
Durante esse intervalo, o ESP32-C3 realiza duas medições:
- A nova tensão da bateria sob carga.
- A tensão sobre o resistor shunt de 0,05 Ω.
A corrente é calculada pela tensão medida no shunt:
A queda de tensão da bateria é obtida pela diferença entre a tensão sem carga e a tensão com carga:
Com esses valores, calculamos a resistência interna:
Como essa resistência normalmente é muito pequena, o resultado é apresentado em miliohms:
Por exemplo, uma resistência de 0,083 Ω corresponde a 83 mΩ.
O acionamento é realizado em pulsos curtos para reduzir o aquecimento do resistor de carga e evitar uma descarga desnecessária da bateria.
A circuitaria
O circuito utiliza um ESP32-C3 como unidade de controle e processamento.
A tensão da bateria é medida por um divisor formado por dois resistores de 10 kΩ. O ponto central do divisor é conectado ao GPIO 0 pelo fio branco. Como os dois resistores possuem o mesmo valor, a tensão aplicada à entrada analógica corresponde à metade da tensão da bateria.
Assim, quando a bateria estiver completamente carregada com 4,2 V, o GPIO 0 receberá aproximadamente 2,1 V, permanecendo dentro da faixa de medição do ESP32-C3.
O resistor de carga de 4,7 Ω é conectado entre o positivo da bateria e o dreno do MOSFET A06N03. O MOSFET funciona como uma chave eletrônica, permitindo que o ESP32-C3 aplique ou retire a carga da bateria.
O source do MOSFET é conectado ao resistor shunt de 0,05 Ω, que retorna ao GND. O fio amarelo liga o ponto entre o source e o shunt ao GPIO 1. A tensão medida nesse ponto permite calcular a corrente que circula pela carga.
O gate do MOSFET recebe o sinal do GPIO 2 através de um resistor de 100 Ω. Também existe um resistor de 10 kΩ entre o gate e o GND, mantendo o MOSFET desligado enquanto o ESP32-C3 está iniciando ou quando o pino estiver sem controle.
O display OLED utiliza comunicação I²C e está conectado da seguinte maneira:
- VCC → 3,3 V do ESP32-C3
- GND → GND
- SDA → GPIO 8
- SCL → GPIO 9
Todos os pontos de GND — ESP32-C3, bateria, divisor de tensão, shunt, MOSFET e OLED — precisam estar interligados.
O resistor de 4,7 Ω pode dissipar vários watts e aquecer rapidamente. Por isso, deve ser um resistor de potência adequado, preferencialmente de pelo menos 5 W, e o teste deve utilizar pulsos curtos. Não teste células danificadas, estufadas, aquecidas ou com sinais de vazamento.
Conclusão
O protótipo desenvolvido no Circuitaria LAB demonstrou que é possível medir a resistência interna de células de íons de lítio utilizando um ESP32-C3 e componentes relativamente simples.
Durante o teste, nosso medidor apresentou um resultado de 84 mΩ. A mesma célula foi medida com o equipamento comercial FNIRSI HRM-10, que indicou 84,52 mΩ. A diferença entre os dois resultados foi de apenas 0,52 mΩ, aproximadamente 0,6%, mostrando uma excelente concordância entre o protótipo e o instrumento de referência.
Fatores como resistência dos fios, qualidade dos contatos, temperatura da célula e tolerância dos componentes podem influenciar o resultado. Mesmo assim, o protótipo mostrou-se adequado para comparar baterias, identificar células desgastadas e acompanhar o aumento da resistência interna ao longo do tempo.
Com melhorias na calibração, na montagem e nas conexões, o instrumento poderá alcançar resultados ainda mais consistentes. O projeto também demonstra como conceitos de eletrônica, instrumentação e programação podem ser reunidos para desenvolver uma ferramenta útil e de baixo custo.
Criado por: joao-arrais



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